terça-feira, 5 de outubro de 2010


Seriam curtos demais os meus braços?
Ou a realidade estaria lançada ao infinito inalcançável?

A objetividade seria tão diminuta para minha amplidão?
Ou eu estaria tão ínfima para lançar-me ao coexistir?

Abaixo dos meus olhos estão todas as coisas
Faço-me expectadora:
e limito o meu atuar apenas ao imaginário

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

(...)

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Garcia Lorca


(...)
Não sabemos quem somos,
não sei quem tu és.
Meu presente e meu passado?
Do futuro nada sei.
Quem és tu que me fazes fugir de mim mesma?

Rosani Abou Adal

domingo, 3 de outubro de 2010

Do constatar o sentir

Proxilidade a parte
Monossilabicamente falando:
Encantada!

Do entender-se

É preciso respeitar a transição
Olha-la nos olhos
Percorrer com atenção o cominho necessário:
O ritual do reconhecimento

Ver-se dentro dos olhos fundos e compenetrados da transição
E deixar que ela se veja dentro de seus olhos:
 invariavelmente perplexos
por sabê-la diante de si

E após saberem-se mutuamente:
Abraçar-se com força terna e precisa
Deixando que a mão flamejante da mesma
Marque o território que é seu por direito

Derretendo a pele antes petrificada pelo medo

Tomando-a pelo braço até o porto,
Onde se despedirão saudosos
E com ânsia pelo próximo encontro

sábado, 2 de outubro de 2010


[a longa noite está a sufocar-me.]

"Se um dia me quiseres te darei
O tesouro dos czares
Mil flores em jarras aos pares
De dia sorrisos solares
À noite um céu de celulares
Sarongs de Bali saias sáris
A adrenalina dos safáris

Se um dia me quiseres te darei
O mapa dos pomares
Veredas sertões e seus luares
Suores do sol e o sal dos mares
Arco-íris e ouro de avatares
Rumores e rimas estelares
E asas de lata pra voares

Se um dia me quiseres te darei
Meus melhores olhares
Com a vida farei malabares
Aos olhos de Deus milenares
E mesmo que a dor varra os ares
Como aviões longe dos hangares
Te darei prazer apesar dos pesares"

- Passa amanhã, Realidade!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

["Já sei muito. Sei uma coisa. Sei que não são os vestidos que fazem as mulheres mais ou menos bonitas, nem os cuidados de beleza, nem o preço dos cremes, nem a raridade, o preço dos enfeites. Sei que o problema está algures. Não sei onde. Sei só que não está onde as mulheres julgam (...)

Esta falta das mulheres a si próprias, por si próprias perpetrada, apareceu-me sempre como um erro.

Não havia que atrair o desejo. Ele estava naquela que o provocava ou não existia. Ou estava lá desde o primeiro olhar ou então nunca existira. Era a inteligência imediata da relação de sexualidade ou então não era nada. Isso soube-o eu antes do experiment."]
(...)
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma...
Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir...
(...)

E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida...

(...)
Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele,
Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto
E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir...
Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso ...
Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz,
E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.
(...)

Alvaro de Campos

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.



Nuno Júdice



"e como uma adolescente
tropeço de ternura
por ti."

quinta-feira, 30 de setembro de 2010


Ó mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!



Florbela Espanca

(E para sempre
a amante solidão nos chama e abraça.)



Lya Luft




Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.




Cassiano Ricardo

Insânia

No mundo vago das idealidades
Afundei minha louca fantasia;
Cedo atraiu-me a auréola fulgidia
Da refulgência antiga das idades.


Mas ao esplendor das velhas majestades
Vacila a mente e o seu ardor esfria;
Busquei então na nebulosa fria
Das ilusões, sonhar novas idades.


Que desespero insano me apavora!
Aqui, chora um ocaso sepultado;
Ali, pompeia a luz da branca aurora.

E eu tremo entre um mistério escuro:
- Quero partir em busca do Passado,
- Quero correr em busca do Futuro.





Augusto dos Anjos

à ternura pouca
me vou acostumando
enquanto me adio
servente de danos e enganos

vou perdendo morada
na súbita lentidão
de um destino
que me vai sendo escasso

conheço a minha morte
seu lugar esquivo
seu acontecer disperso

agora
que mais
me poderei vencer?



Mia Couto

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.



António Gedeão

Dia feito de tempo e de vazio:
desabitas-me, apagas
meu nome e o que sou,
enchendo-me de ti: luz, nada.


E flutuo, já sem mim, pura existência.



Octavio Paz

quarta-feira, 29 de setembro de 2010