quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

extremamente sã.
extremamente lúcida.
extremamente convicta do que digo.
despejo todo meu ódio acumulado sobre vos que me trouxeram ao mundo.

eu vos amaldiçoo.

maldito seja o dia em que fui concebida.
nutrirei eternamente meu desprezo por vossa santíssima união.
renego vossos credo e costumes.

fim aos espelhos que me proporcionam a infeliz visão desses traços que carrego hereditariamente.

que os matrimonios sejam dissolvidos instantaneamente.
que a maternidade torne-se auto abortiva e que seja despejado sobre vos o sangue dessa o injúria.
que a inevitável lama que nos aguarda ao fim dessa mediocridade denominada existencia se adiante.

e que meus olhos alcancem a visão desse martírio.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Hoje eu não faço mais nenhum sentido. Livre de todos aqueles preceitos tolos, lamento pela impossibilidade de me deparar novamente com aquelas adoráveis circunstancias. Do que fui ontem, hoje só resta o asco pelas rimas primárias.

domingo, 11 de janeiro de 2009

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Maldita a folha negra
Em que Deus escreveu a minha sina...
Maldita minha mãe, que entre os joelhos
Não soubeste apertar, quando eu nascia,
O meu corpo infantil! Maldita!

A.A.
E fica no teu ermo entristecida,
Alma arrancada do prazer do mundo,
Alma viúva das paixões da vida.

A.A.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

- O que você busca em mim?
- Eu deveria buscar algo em ti?
- Você ja perdeu alguns momentos comigo...
- E... ?
- Por que entre tantas ou poucas coisas que você poderia estar fazendo, esta aqui justamente falando comigo?
- Bem, o acaso nos colocou aqui, eis que estamos a nos falar, não há nada de especial no que ocorre nesse momento... Mas eu poderia dizer também que estou aqui justamente falando com você pelo prazer imensurável de contemplar esse belo sorriso...Mas eu não sou tão gentil assim
- Você me atrai.
- Bom saber... infla meu ego!
- Mas não me atrai só fisicamente, apesar de seres linda, me atrai de outra forma.
- Se a atração fosse apenas física não inflaria meu ego...
- Você é prepotente
- Meu ego que não é tão superficial assim...
- Desculpe a sinceridade, mas apesar de gostar mais do seu cerébro do que seu seio, pretendo beijar sua boca um dia, não sua testa.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Buk

Minhas próprias coisas eram tão más e tristes, como o dia em que nasci. A única diferença era que agora eu podia beber de vez em quando, apesar de nunca ser o suficiente. A bebida era a única coisa que não deixava o homem ficar se sentindo atordoado e inútil o tempo todo. Tudo mais te pinicando, te ferindo, despedaçando. E nada era interessante, nada. As pessoas eram limitadas e cuidadosas, todas iguais. E eu teria que viver com esses putos pelo resto de minha vida, pensava. Deus, eles todos tinham cus, e órgãos sexuais e suas bocas e seus sovacos. Eles cagavam e tagarelavam e eram tão inertes quanto bosta de cavalo. As garotas pareciam boas à distancia, o sol provocando transparencias em seus vestidos, refletido em seus cabelos. Mas chegue perto e escute o que elas tem na cabeça sendo vomitado pelas suas bocas. Você ficava com vontade de cavar um buraco sobre um morro e ficar escondido com uma metralhadora. Certamente eu nunca seria capaz de ser feliz, de me casar, nunca poderia ter filhos. Mas que diabo, eu nem conseguia um emprego decente...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


Ela não tinha ninguém. Mal pertencia a si própria com toda aquela alma decomposta não podia se suportar. Abarrotada de hipocrisia negando a si própria para encontrar a felicidade inatingível.

Sem companhia, amor ou cigarros se abraçou na garrafa de whisky mais próxima – logo ela que nunca tomava aquelas bebidas fortes do oeste, que não suportava com gelo nem puro o sabor compacto do destilado quase amargo descendo pelo corpo – tomou dois, cantou Piaf, a única melodia que ainda atingia seu interior bruto, quase intocável, só de lembranças putrefatas e sujas, pela cinza. Tomou duas doses puras desta vez e dançou. Dançou sem música pela casa, não escutava a sua própria, proclamando sua solidão interna e o abandono daqueles por quem esperava pelo socorro naquela ocasião. CFA

sábado, 27 de dezembro de 2008

Ah! Velho Buk!




-Você acha que se deva glorificar a bebida?
-Não mais do que qualquer outra coisa
-Beber nao é uma doença?
-Respirar é uma doença
“Com ignorância e vileza absolutas, nossos genitores, isto é, nossos pais, nos põem no mundo e, feito isso, não conseguem lidar conosco, todas as suas tentativas fracassam, eles desistem logo, mas sempre tarde demais, sempre e somente quando já nos destruíram faz tempo" (Thomas Bernhard)

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Shakespeare criou o mundo em sete dias

No primeiro dia fez o céu, as montanhas e os abismos da alma.
No segundo dia fez os rios, os mares, os oceanose os outros sentimentos -e deu-os a Hamlet, a Júlio César, a Antônio, a Cleópatra e a Oféliaa Otelo e outros,para os dominarem, eles e os seus descendentes,até o fim dos tempos.
No terceiro dia reuniu todos os homense ensinou-lhes o gosto:o gosto da felicidade, do amor, da desesperança,o gosto do ciúme, da glória e assim por diante,até se terem acabado todos os gostos.
Chegaram então alguns indivíduos que se tinham atrasado.
O criador afagou-lhes a cabeça compadecidoe disse-lhes e que não lhes restava senão tornarem-secríticos literáriose contestaram-lhe a obra.
O quarto e o quinto dia reservou-os para o riso.
Soltou os palhaçospara darem cambalhotas,e deixou os reis, os imperadorese outros infelizes divertirem-se.
No sexto dia resolveu alguns problemas administrativos:pôs no caminho uma tempestadee ensinou ao rei Learcomo se deve usar a coroa de palha.
Ainda haviam sobrado alguns desperdícios da criação do mundoe então fez Ricardo III.

No sétimo dia viu se ainda tinha algo por fazer.
Os diretores de teatro já tinham enchido a terra com cartazes,e Shakespeare pensou que depois de tanto trabalhomerecia ele próprio ver um espetáculo.
Mas antes, como estava exaustivamente cansado,foi morrer um pouco.

Marin Sorescu
tradução de Luciano Maia

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008



Escrever fora o único jeito que ela havia encontrado para suportar a vida.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

_ As vezes eu não sinto nada, não escuto, não falo, tenho vontade de não ver também, mas se eu fecho os olhos eu quebro a cara, tô de saco cheio dessa falta de sentido, dessa palhaçada nonsense, sacou?
_ Relaxa, meu amor, relaxa.
_ É preciso reconhecer o espaço, eu não tenho mais que cinco minutos, é preciso que as coisas se resolvam, se demorar muito eu vou continuar sem entender.
_ Relaxa, meu amor, relaxa.
_ Se ficar muito tempo ninguém aguenta, tem que saber onde se pisa, entendeu?
_ Relaxa, meu amor, relaxa.
_ Se relaxar o negócio sai mal feito, é preciso dedicãção, saber onde tá se metendo. Geralmente a gente não sabe que tá com a cabeça dentro da boca de um leão, e o bicho tá louco para matar a fome!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

quão detestáveis são as noites de verão. quão incoveniente é o riso. as falas desconexas. as efusividades desses hóspedes temporários dos prazeres.
Ah! Esse medo de morrer (essa aflição por estar no mundo)
De braços cruzados, a vida segue (e eu: imóvel)

[vou me esfacelando contra as palavras]

domingo, 21 de dezembro de 2008

Ah! Oscar Wilde, meu caro, eu poderia ser uma mera reprodutora de ti sem nenhum trauma!




Aquela dama estava usando arrebique demais, ontem à noite, e roupa de menos. Isso é sempre sinal de desespero, numa mulher.

sábado, 20 de dezembro de 2008



Eu não estou doente, só sei que a vida não vale a pena ser vivida.


Os olhos parados numa expressão estranha, misto de ironia e tristeza. Mas não se pode negar que tinha algo diferente - alguma coisa assim que transcendia o corpo e ficava pairando como... como uma névoa vaga de manhã de outono. O fato é que ela possuía uma graça especial, talvez o jeito como se debruçava à janela, ou mesmo o jeito de sorrir apertando os lábios, como se temesse revelar no sorriso todo o seu mundo interior.

Caio Fernando Abreu