quinta-feira, 17 de junho de 2010

A mentira, a mentira perfeita, acerca das pessoas que conhecemos, sobre as relações que com elas tivemos, sobre o nosso móbil em determinada acção formulado por nós de uma forma completamente diferente, a mentira acerca do que somos, acerca do que amamos, acerca do que sentimos pela criatura que nos ama e que julga ter-nos tornado semelhante a ela porque passa o dia a beijar-nos, essa mentira é das únicas coisas no mundo que nos pode abrir perspectivas sobre algo de novo, de desconhecido, que pode abrir em nós sentidos adormecidos para a contemplação do universo que nunca teríamos conhecido.

Marcel Proust, A Prisioneira


"Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno ao meu pescoço, uma voz que cante baixo e pareça querer me fazer chorar. Eu quero um calor no inverno, um extravio morno de minha consciência e depois sem som, um sonho calmo, um espaço enorme, como a lua rodando entre as estrelas..."




O Livro do Desassossego
"Sermões e lógicas jamais convencem;
O peso da noite cala bem mais
Fundo em minha alma. "

Walt Whitman

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Caio... Caio...

[...coisas inexplicáveis, carências incuráveis...
Ninguém acredita, mas eu sou uma pessoa muito sozinha.
Não pense que isso é ruim não,
porque ruim é não sentir nada,
a solidão faz parte.
Tenho sentido uma vontade sobrenatural
de ligar para alguém que já não me atenderia mais,
tenho vontade de dizer que faz falta o que não vivi. ]
"Ora veja... é o que sempre acontece às pessoas românticas: enfeitam uma criatura, até o último momento, com penas de pavão, e não querem ver, nela, senão o que é bom, muito embora sentindo tudo ao contrário.
Jamais querem, antecipadamente, dar às coisas o seu devido nome.
Essa simples ideia lhes parece insuportável.
A verdade, repelem-na com todas as forças, até o momento em que aquela pessoa, engalanada por elas próprias, lhes mete um murro na cara."

in Crime e Castigo.
As coisas se perdem,
simplesmente desaparecem,
simplório desinteressante e sem nenhum requinte, assim como vos parece

as bases vão ruindo gradativamente,
escapam pelos vãos dos dedos,
vão esvaindo aos poucos

...até não mais estarem presente,

até não ser mais possível referenciar-se,
um vazio pleno faz-se embaixo dos pés

...e vaga-se,

sem nenhuma firmeza,
sem nenhuma estrutura...



[Eu queria ser uma ilha]

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Pois é, Caio, por quê?

"Por que, na segunda-feira, eles (nós) não revelam a carência do fim de semana e se dizem coisas duras?"

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Proporcione-me a sensação de poder estar desencontrada em meio à estranheza da existência.
Que adentre frio pela janela e petrifique meus anseios incansáveis;
Chopin pelos meus ouvidos distraindo os meus fantasmas e assombros persistentes;
Vinho pelos meus lábios deixando minhas angustias ébrias livremente imorais e profanadoras das minhas lamúrias injuriosas;
Que o desalento me dê um abraço forte ao ponto de esfacelar os ossos para que eu possa prostrar-me sobre uma superfície macia absolutamente resignada,
absolutamente entregue,
dispersa,
vagando vagarosamente na superfície,
totalmente vazia,
totalmente rasa,
insustentavelmente leve...

sexta-feira, 28 de maio de 2010






Solidão, que poeira leve
Solidão, olha a casa é sua

quinta-feira, 27 de maio de 2010

quarta-feira, 19 de maio de 2010






Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.



Eugênio de Andrade

sexta-feira, 7 de maio de 2010



A vida tem sido essa coisa morna que não merece desgaste reflexivo. Refletir é matéria suicida e desgastante, não necessariamente pelo trabalho mental empregado, mas pela certeza irrefutável da angústia que se encontra pelo caminho em forma de material gosmento capaz de fazer deslizar até os passos mais firmes e precisos, e o caos, em estacas pontiagudas perfurando toda e qualquer superfície dos supostos seres providos de trabalho mental, e principalmente pela certeza que no findar do processo reflexivo, sempre se usa conclusões que demonstram a banalidade de todo e qualquer processo, e toda e qualquer circunstância.
Nada resiste, o interesse é efêmero, não resiste aos dedos perscrutadores que apalpam a vida em busca de cavidades novas e inexploradas, não há becos na existência que resista ao acender de uma lâmpada.
Não há nada
Nada resiste

Se podes, consegues, tem estômago, habilidade e prática, viva na superfície!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Eu sabia que poderia obter êxito de alguma forma, não era possível que SER EU resultaria apenas em experiências catastróficas e situações trágicas.
Toda tentativa, ou efetiva demonstração da minha autenticidade e dos meus anseios particulares, até o presente momento havia apenas me causado uma variedade incontável e inominável de transtornos. Assemelho-me a uma aberração nos meus atos e nas minhas palavras, uma efusividade que se manifesta invariavelmente de forma desproposital, um contínuo de percalços fabricados por mim mesma, sempre com o intuito e evitar a degeneração daquilo que supunha ter de mais caro, e de fato, o que pode haver em mim de mais caro é absolutamente imaterial, e é justamente parte dos elementos que o alheio persiste na tentativa de pisotear, e eu, mantendo o usual padrão de comportamento insano, na busca de defender tais supostas preciosidades, tenho as atitudes mais social e moralmente infames sórdidas e suicidas.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

É assim, amiga. Encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente,
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.
.
Constatamos o pior, os seus aspectos.
Corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
De facto, crescemos em alcoolémia,
acordamos tarde, em pânico,
e perdemos os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
Não temos, ao que parece, serventia.
.
Sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte,
seus gestos de ternura ou de exuberância.
Talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.
.
Mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor,
o desejo, até o onanismo da destruição.
Antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:
.
não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas,
mas duas vezes nada, ninguém,
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram.

Manuel de Freitas

sexta-feira, 16 de abril de 2010

"Que farsa! Toda essa gente sentada com um ar sério; comem. Não, não comem: reparam forças para levar a bom termo a tarefa que lhes foi atribuída. Cada um deles tem o seu pequeno entretenimento pessoal que os impede de se aperceberem que existem; não há nem um que não se julgue indispensável a alguém ou a alguma coisa. Não era o Autodidacta que me dizia outro dia: “ Ninguém era mais qualificado que Nouçapié para empreender esta vasta síntese?" Cada um faz a sua pequena coisa e ninguém é mais qualificado do que ele para a fazer. Ninguém mais qualificado que o caixeiro viajante para usar a pasta Swan. Ninguém mais qualificado do que esse interessante rapaz, para espreitar por debaixo das saias da sua vizinha. E eu, eu estou entre eles, se repararem em mim pensarão que ninguém é mais qualificado que eu para fazer o que faço. Mas eu sei. Não tenho ar de nada, mas sei que existo e eles também existem. Se conhecesse a Arte de persuadir, iria sentar-me perto de um destes senhores de cabelos brancos e explicar-lhe-ia o que é a existência. Ao imaginar a cara que faria, desatei a rir. O Autodidacta olhava-me surpreendido. Gostaria de parar; mas não podia: ri até às lágrimas.
- Está muito feliz, senhor, disse-me o Autodidacta com ar circunspecto.






-É porque penso, disse-lhe a rir, que aqui estamos, iguais ao que somos, a comer e a beber para manter a nossa preciosa existência e, que não há nada, nada, nenhuma razão de existir. "




Jean-Paul Sartre, La nausée.
"O pior par de opostos é o tédio e o terror. Por vezes, a nossa vida é um movimento de pêndulo de um para o outro. O mar não tem uma ruga. Não há nem bafo de vento. As horas são intermináveis. Estamos tão entediados que nos afundamos num estado de apatia próximo do coma., depois o mar fica agitado e as nossas emoções são empurradas para o frenesim. Mas nem mesmo esse dois opostos permanecem distintos. No nosso tédio há elementos de terror: desfazemo-nos em lágrimas; ficamos apavorados; gritamos; magoamo-nos deliberadamente. E no aperto do terror - a pior tempestade - ainda sentimos tédio, uma profunda saturação com tudo aquilo."


Yann Martel, A vida de Pi, Difel, 2008,Lx, pp.238

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Então as boas maneiras, amparadas pela moral judaico-cristão, advertem que não julguemos para que não sejamos julgados, certo?

Certo!? Se aos seus ouvidos isso soa como certo, meus sentimentos por vossa ingenuidade!

Primeiramente, se está se privando da doce e trabalhosa arte de julgar apenas objetivando não ser julgado, tudo indica que há elementos obscuros em seu histórico os quais necessita ocultar. Ou então, caso não se trate da roupagem de boa postura no corpo de calhorda, por que um ser desprovido de pontos a serem esclarecidos temeria o julgamento?
Não seriam esses os exemplos exímios de juízes que a humanidade necessitaria? Não seria o parecer de tais seres que nos proporcionaria uma visão ampla e acertada dos nossos delitos, e que poderia nos aplicar uma sentença verdadeiramente regeneradora?

O fato é que, há sempre vestígios de cretinagem em qualquer percurso, contudo, tal preceito do não julgar, orientado pelas boas maneiras, apenas obstaculizam as possibilidades de análise dos inevitáveis tropeços que invariavelmente se dão em pedras instransponíveis.
Se fosse o caso de tal ausência de julgamento implicar necessariamente na nulidade dos pareceres e sentenças, ok!, estaríamos resolvidos e satisfeitos!
Injurias cometidas, injurias perdoadas, e sem tramites congestionadores de ego, auto-estima e consciência!
Entretanto, nota-se que o que decorre dos não julgamentos, são as não análises dos fatos, as não possibilidades de defesa, acompanhadas dos mais reles pré-conceitos!

Se for assim, na parte que me toca: Julguem! Por obséquio!

segunda-feira, 5 de abril de 2010



A força dos processos imaginativos ultrapassa qualquer possibilidade de racionalidade ou de ancoragem no chão firme e inabalável da objetividade,
os que se deixam enveredar pelas vias obscuras das idealizações fabulosas efetivamente vão longe,

escorregando nas inverdades,
tropeçando na própria verborragia,
por hora trilhando atalhos suicidas,
ou irônica e acidentalmente percorrendo os caminhos mais longos por mero descuido,
mas sempre estando absolutamente distante de qualquer possibilidade de porto.

Incrivelmente, substitui-se a realidade concreta por devaneios inventados,
e ainda sente-se falta do que foi absolutamente desprovido de vinculo com os fatos inquestionáveis que compuseram o cotidiano do qual fizeste parte apenas mentalmente,
e única e exclusivamente na minha mente.

Não deixaste nem uma impressão digital.

sábado, 3 de abril de 2010

Aquela voz fina e aguda adentrava aos meus ouvidos de maneira pouco agradável me proporcionando uma leve, quase imperceptível, mas persistente dor de cabeça. Mas, como as dores de cabeça era uma constante, não seria por esse motivo que eu trocaria de música, ou então, drasticamente, desligaria o som. Não, eu não o faria, afinal, o que poderia me restar além daquelas frases bem formuladas e amaldiçoadamente providas, milagrosamente, de doces rimas primárias?
Sempre resta pouco se formos retirar os elementos causadores de sutis dores de cabeça. E o que resta, pode fazer com que as dores de cabeça sejam substituídas por latentes enfermidades generalizadas!