sábado, 18 de setembro de 2010

De seguro,
Posso apenas dizer que havia um muro
E que foi contra ele que arremeti
A vida inteira.
Não. Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.
A honra era lutar
Sem esperança de vencer.
E lutei ferozmente noite e dia,
Apesar de saber
Que quanto mais lutava mais perdia
E mais funda sentia
A dor de me perder.

Miguel Torga

(1907-1995)


(...) permite que eu deseje ser só — ou teu somente — num lugar do mundo onde os gritos não tenham eco, onde a inveja não ameace, onde as coisas do amor aconteçam sem testemunhas. Livrem-me da pressa, das datas, dos salários e das dívidas e a todos serei agradecido, num verso submisso. Livrem-me de mim, de uma certa insaciabilidade que apavora e de todos serei escravo numa humilde canção. Permite que eu só queira, agora, esse canto de sono e preguiça, onde não necessite dos atletas, onde o céu possa ser céu sem urubus e aviões, onde as árvores sejam desnecessárias, porque os pássaros se sintam bem em cantar e dormir em nossos ombros.

31/05/1963

Texto extraído do livro "Com Vocês, Antônio Maria", Editora Paz e Terra - Rio de Janeiro, 1964, pág. 225.


Se não der certo,
meu coração é esperto.
Não vai parar de bater pra te esquecer, meu bem.

cazuza

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

- É o que ele escolheu.
- O que ele escolheu ou o que lhe foi deixado…
- O que você disse?
- Estou dizendo, é o que ele escolheu ou o que lhe foi deixado?
- Não, é o que ele escolheu. Ele escolheu isto. Para se isolar, desaparecer e viver a vida que viveu.
- Bem, talvez ele não pôde encontrar o caminho… não sei… Às vezes, você não pode decidir, é só o que lhe sobra.

Do filme Lluvia (2008), de Alma para Roberto.
Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.

Graça Pires

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

- É que há momentos de respirar poesias, e momentos de inspirá-las, se não a gente sufoca....

Ainda que sendo tarde e em vão,
perguntarei por que motivo
tudo quanto eu quis de mais vivo
tinha por cima escrito "Não".

 
 
 
Cecília Meireles
Este era o acaso a que serviram minhas lágrimas?
Esta era a doce escravidão da minha vida?
Isto era toda a tua glória - este resíduo?

E à morte roubo minha alma,apenas?



Cecilia Meireles

Nem palavras de adeus, nem gestos de abandono.
Nenhuma explicação. Silêncio. Morte. Ausência.
O ópio do luar banhando os meus olhos de sono...
Benevolência. Inconsequência. Inexistência.

Paz dos que não têm fé, nem carinho, nem dono...
Todo o perdão divino e a divina clemência!
Oiro que cai dos céus pelos frios do outono...
Esmola que faz bem... - nem gestos, nem violência...

Nem palavras.Nem choro. A mudez. Pensativas
abstrações. Vão temor de saber. Lento, lento
volver de olhos, em torno, augurais e espectrais...

Todas as negações. Todas as negativas.
Ódio? Amor? Ele? Tu? Sim? Não? Riso? Lamento?
- Nenhum mais. Ninguém mais. Nada mais. Nunca mais...



Cecília Meireles

quarta-feira, 15 de setembro de 2010


[Dou-me à veleidade de sonhar vida nova. De, como já disse, querer refazer o meu mundo, abrir outros horizontes, enquanto de fato me sinto morrer aos poucos. Não tanto do corpo, mas da alma, com a impressão de que esta vai perdendo o que eu julguei impossível de perder e se aproxima dum temeroso vazio.]



J. Rentes de Carvalho



segunda-feira, 13 de setembro de 2010


Provoca uma certa melancolia,
uma tristeza decadente – seguramente literária—
como certas canções de entre guerras
ou páginas soltas de Drieu La Rochelle,
ver um homem só, afastado e distante,
no balcão de um bar com uma decoração cosmopolita.
Nessa idade incerta, tão incerta como a luz ambiente,
em que já não é jovem e contudo ainda não é velho
mas traz nos seus olhos a marca da sua derrota
quando com um gesto estudado acende um cigarro.
Muitos copos e muitas camas,
uma indubitável barriga mal dissimulada pela camisa,
o tremor, não muito visível, da sua mão segurando um copo,
fazem parte do naufrágio, da ressaca da vida.
Um homem que espera sabe deus o quê
e, inspirando o fumo, olha com declarada indiferença
as garrafas à sua frente, os rostos reflectidos por um espelho,
tudo com a particular irrealidade de uma fotografia.
E causa, ainda mais triste, um fundo suspiro reprimido,
ver no fundo desse copo – mágico caleidoscópio –
que esse homem és irremediavelmente tu.
Não resta então senão um sorriso céptico e distante
– aprendido muito cedo e útil anos mais tarde –,
e acabares a bebida de um só trago,
pagares a conta enquanto chamas um táxi
e dizeres-te adeus com palavras banais.



Juan Luis Panero

sábado, 11 de setembro de 2010



Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silêncio,
e a dor é de origem divina.

 
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.



Cecília Meireles

Quanto terror latente
nesse mar gelado
que desde sempre
levamos na alma.


António Castañeda


Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível:
com ele se entretém
e se julga intangível.

Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para infinito.

Eu sei que as dimensões impiedosos da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.



António Gedeão


E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!




Florbela Espanca

sexta-feira, 10 de setembro de 2010


Porque é sempre de nós que nos separamos quando deixamos alguém,
É sempre de nós que partimos quando deixamos a costa,
A casa, o campo, a margem, a gare, ou o cais.
Tudo que vimos é nós, vivemos só nós o mundo.
Não temos senão nós dentro e fora de nós,
Não temos nada, não temos nada, não temos nada...
Só a sombra fugaz no chão da caverna no depósito de almas,
Só a brisa breve feita pela passagem da consciência,
Só a gota de água na folha seca, inútil orvalho,
Só a roda multicolor girando branca aos olhos
Do fantasma inteiro que somos,
Lágrima das pálpebras descidas
Do olhar velado divino.

Álvaro de Campos


 Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,
Até virem meter-me no caixão.
Nasci pra mandarim de condição,
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.

Ah que bom que era ir daqui de caída
Prà cova por um alçapão de estouro!
A vida sabe-me a tabaco louro.
Nunca fiz mais do que fumar a vida.

E afinal o que quero é fé, é calma,
E não ter estas sensações confusas.
Deus que acabe com isto! Abra as eclusas —
E basta de comédias na minh’alma!


 
Álvaro de Campos

Decerto não serás feliz.
Algum oráculo, estranho
e de longo tempo, anuncia.
Imponderável é o teu destino.
Mesmo que o amor inunde o pátio
das tardes e as tardes inundem as margens
dos dias e os dias invadam o delta
das noites, decerto não serás feliz.
Os elos, mesmo os de sangue, ruirão.
O tempo, com sua agulha silente, tecerá
a fábula febril da dor, os atrozes
elementos de tua insaciável agonia.
E nada restará a ti, ao animal
que és e foste nas horas extremas
dessa ancestral melancolia.
 
 
Hildeberto Barbosa Filho
Inglória é a vida, e inglório o conhecê-la.
Quantos, se pensam, não se reconhecem
Os que se conheceram!
A cada hora se muda não só a hora
Mas o que se crê nela, e a vida passa
Entre viver e ser.



Ricardo Reis


Tênue passar das horas sem proveito,
Leve corrrer dos dias sem ação,
Como a quem com saúde jaz no leito
Ou quem sempre se atrasa sem razão.

Vadio sem andar, meu ser inerte
Contempla-me, que esqueço de querer,
E a tarde exterior seu tédio verte
Sobre quem nada fez e nada quer.

Inútil vida, posta a um canto e ida
Sem que alguém nela fosse, nau sem mar,
Obra solenemente por ser lida,
Ah, deixem-se sonhar sem esperar.



Fernando Pessoa

Não quero



Não quero recordar nem conhecer-me.
Somos demais se olhamos em quem somos.
Ignorar que vivemos
Cumpre bastante a vida.

Tanto quanto vivemos, vive a hora
Em que vivemos, igualmente morta
Quando passa conosco,
Que passamos com ela.

Se sabê-lo não serve de sabê-lo
(Pois sem poder que vale conhecermos?)
Melhor vida é a vida
Que dura sem medir-se.



Ricardo Reis


Fecha os olhos devagar
Vem e chora comigo
O tempo que o amor não nos deu
Toda a infinita espera
O que não foi só teu e meu
Nessa derradeira primavera



Vinicius de Moraes

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Por que fazer o menor gesto,
se nada sei, se nada  [TUDO] sofro,
se estou perdida em mim, tão perdida
como o som da voz no teu sopro.

Cecília Meireles
"O que tanto zelamos
na fileira dos dias,
o que tanto brigamos
para guardar, de repente
não presta mais: jornais, retratos,
poemas, posteridade.
Minha bagagem
é a roupa do corpo.
...

Eu fui o que não sou.
Depois que inventaram o inconsciente,
a verdade fica sempre para depois."
 
(Poemas do livro Cinco Marias)






"(...) O nojo e o frio do teu silêncio
apaga a lógica poética
em que me fundo.
A bordo do teu nome vazio
escrevo-te estes versos
com a azul absurdo deste dia."



Armando Artur (poeta moçambicano)
[Mas nem sempre é necessário tornar-se forte.
Temos que respirar nossas fraquezas.]


...Clarice Lispector

quarta-feira, 8 de setembro de 2010


"Desmascaramos a farsa para continuarmos a existir no meio dela. De que nos tem servido essa lucidez senão para chamar barra cada vez mais pesada?"

"por dentro, inútil
medo em branco
examinando possibilidades
as mais diversas
de escape que não há"



Existe sempre alguma coisa ausente
Tenho a boca afiada de punhais
não choro
olho os faróis com duros olhos
ardidos de quem tem febres
mas não sangro
as mãos vazias deixam passar o vento
lavando os dedos que não se crispam
não há palavras, nem mesmo estas
o único sentido de estar aqui
é apenas estar secamente aqui
cravado como um prego
em plena carne viva da tarde.



Caio... julho de 1980
Andréia... setembro de 2010

Alento

Quando nada mais houver
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.
E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.
Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.


( Extraído do livro Caio Fernando Abreu- Caio 3D, O Essencial da Década de 1970, p.144)

"(...) Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total."

sábado, 4 de setembro de 2010

Não faças de ti

Um sonho a realizar.

Vai.

Sem caminho marcado.

Tu és o de todos os caminhos.

Sê apenas uma presença.

Invisível presença silenciosa.

Todas as coisas esperam a luz,

Sem dizerem que a esperam.

Sem saberem que existe.

Todas as coisas esperarão por ti,

Sem te falarem.

Sem lhes falares.

Sê o que renuncia

Altamente:

Sem tristeza da tua renúncia!

Sem orgulho da tua renúncia!

Abre as tuas mãos sobre o infinito.

E não deixes ficar de ti

Nem esse último gesto!

O que tu viste amargo,

Doloroso,

Difícil,

O que tu viste inútil

Foi o que viram os teus olhos

Humanos,

Esquecidos...

Enganados...

No momento da tua renúncia

Estende sobre a vida

Os teus olhos

E tu verás o que vias:

Mas tu verás melhor...

... E tudo que era efêmero

se desfez.

E ficaste só tu, que é eterno.





Cecília Meireles

(1901-1964)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010


"O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio,
Mas deixaram as suas marcas
Se hoje sou deserto é que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força e a ventania,
Vem mais forte
Hoje só acredito no pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia, em cada ponto de partida
Há muito me deixou...
Há muito me deixou..."

quinta-feira, 2 de setembro de 2010



"Essa ferida, meu bem às vezes não sara nunca às vezes sara amanhã.”...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

sábado, 28 de agosto de 2010

sexta-feira, 27 de agosto de 2010



"Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior a ela?"

 
Álvaro de Campos

terça-feira, 24 de agosto de 2010

[pausa para o delírio]


["Cavaria até que meu túnel
Ao seu de repente chegasse,
Teria então minha recompensa –
Deter-me no seu olhar."]



Emily Dickinson

"Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!

Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-a!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer cousa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.

Já disse que sou sozinho!



Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...

E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!"




"A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço."

 
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

domingo, 22 de agosto de 2010

"Quero sentir. Não sei... perco-me todo...
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo para ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo."

Mário de Sá-Carneiro


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces...


(Vinícius de Moraes - Ausência)
Diversos
Versos
Vorazes
... invadem o meu pensamento

Vagos 
 Vadios
 Vagam, vagarosamente...

Nada digo, suprimo-os!

sábado, 21 de agosto de 2010



"A arte de abandonar não é ensinada a ninguém.
E está longe de ser rara a situação angustiosa em que devo decidir se há algum sentido em prosseguir jogando.
Serei capaz de abandonar nobremente?
 ou sou daqueles que prosseguem teimosamente esperando que aconteça alguma coisa?
como, digamos, o próprio fim do mundo?
ou seja lá o que for, como a minha morte súbita, hipótese que tornaria supérflua a minha desistência?



Eu não quero apostar corrida comigo mesmo. Um fato.”




(Um sopro de vida, Clarice Lispector)

Retrato

No teu rosto começa a madrugada.
Luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.

Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, redonda, madura.

Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.

Eugénio de Andrade

''Sob os ramos que falam com o vento,
Inerte, abdico do meu pensamento.
Tenho esta hora e o ócio que está nela.
Levem o mundo: deixem-me o momento!''


Fernando Pessoa

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Derradeira primavera

Põe a mão na minha mão
Só nos resta uma canção
Vamos, volta, o mais é dor
Ouve só uma vez mais
A última vez, a última voz
A voz de um trovador

Fecha os olhos devagar
Vem e chora comigo
O tempo que o amor não nos deu
Toda a infinita espera
O que não foi só teu e meu
Nessa derradeira primavera

Vinicius de Moraes

Eu não me atreveria a contrariar Fernando Pessoa...

"Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!"

Teus olhos verdes são maiores que o mar.
Se um dia eu fosse tão forte quanto você
eu te desprezaria e viveria no espaço.
Ou talvez então eu te amasse.
Ai! que saudades me dá da vida que nunca tive!


Tom Jobim

'e agora eu era um louco a perguntar o que é que a vida vai fazer de mim...'

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

["Enche o teu copo, bebe o teu vinho,
enquanto a taça não cai das tuas mãos...
Há salteadores amáveis pelo teu caminho.
Repara como é doce o teu vizinho,
repara como é suave o olhar do teu vizinho,
e como são longas, discretas, as suas mãos
..."]

Ronald de Carvalho, Epigrama

''Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.
Só humanitariamente é que se pode viver.
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!''


''Ó ilusões!
Se eu nada sei de mim e da vida,
Ao menos eu goze esse nada,
sem fé, mas com calma,Ao menos durma viver, como uma praia esquecida''


''Além da minha alma, que outra alma há na minha? ''


''Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia? ''

quarta-feira, 18 de agosto de 2010



“Não parece que quanto mais fortes e extenuantes são as vivências interiores de uma pessoa, tanto mais descomprometida ela vive por fora? Não há nada a fazer: temos de viver; e quando te inibes de ser uma pessoa de acção e te recolhes na solidão pacífica, então as vicissitudes da existência assaltam-te por dentro e nelas tens de dar provas, quer sejas um herói ou um tolo.”

Thomas Mann; Tristão e Outros Contos

terça-feira, 17 de agosto de 2010

''Razão,
de que me serve o teu SOCORRO?
Mandas-me não amar,
Eu ardo, eu amo!
Dizes-me que sossegue,
Eu peno, eu morro. ''


BOCAGE
[sinto uma vontade gritante de poder falar com a alma,
de não precisar fazer sentido,
fugir dos nexos
das coerências,
das simetrias,
das perfeições corretissímas,
das pretensões dignissímas..


eu não quero o tudo que querem,
quero o nada que nem sabem ser...



eu não sou,
e não faço a mínima questão



[fale-me apenas o que a alma quizer dizer,
e se dizer não estiver entre os quereres:
toque,
gesticule,
empurre,
belisque...



não profane as palavras,
não as use indevidamente,
a não ser por solicitação explicita de uma alma serena ou desesperada,
a não ser que o coração implore,
e que os sentidos ameassem explodir por meio de verborragias.



as almas se comunicam melhor..



[mas todos são providos de alma? todas as almas são comunicáveis?]

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

[Derreti-me.
Não de calor.
Só da doçura e delicadeza de pensar em ver-me em seus olhos]
Ah, Coração!
Mantenha-se intacto em meio a tanta aspereza,
e se possível for
não se enrijeça..

Mantenha-se afoito, mas amável
Angustiado, mas tranquilo
Gritando em silêncio o furor da minha alma epilética...



[Mundo, Mundo, vasto Mundo... mas eu não me chamo Raimundo, não me acerto com as rimas, e não procuro solução, mas inquestionavelmente habita em meu peito um vasto coração...]
[Mas livrai-me das relevâncias, Amém!]