sábado, 14 de agosto de 2010

O que poderia haver de melhor para se concluir?!


- Meu caro, leia boas poesias, ouça boas músicas, e deixe esse mundo destrambelhado se danar...
[Se sabes conviver com pessoas intempestivas, emotivas, vulneráveis, amáveis, que explodem na emoção: acolhe-me.]


Clarice Lispector

baila no meu peito
uma dor, anda, pula
deita, dança, baila dor,
bailando nos lábios,
dor bailarina
anda vem menina
dançar comigo
atrás da cortina
anda vem menina
deitar comigo
que a noite termina
anda vem comigo
ou de uma vez por todas
me elimina




Alice Ruiz

Não
Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.

Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.

Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar? ...


Álvaro de Campos


Pausa para enlouquecer.
Quero descer para rasgar o tempo,
emperrar a máquina,
desatar a corda.
Sei que a roda não pode parar,
mas fico de fora por um momento.
Arranco as vestes e abraço o vento.


Flora Figueiredo



"E tratar as sombras com ternura, o medo com ternura e esperar..."

sexta-feira, 13 de agosto de 2010


CUMPLICIDADE:
- A ti entrego meu coração de bendeja, Querida!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010



"Tenho no peito tanto medo, é cedo
Minha mocidade arde, é tarde
Se tens bom-senso ou juízo, eu piso
Se a sensatez você prefere, me fere
Vem aplacar esta loucura ou cura
Faz deste momento terno, eterno
Quando o destino for tristonho, um sonho
Quando a sorte for madrasta, afasta
Não, não é isto que eu sinto, eu minto
Acende esta loucura, sem cura
Me arrebata com um gesto, do resto
Não fale amor não argumente, mente
Seja do peito que me dói, herói
Se o seu olhar você me nega me cega
Deixe que eu aja como louco, que é pouco
No mais horroroso castigo, te sigo"


'E eu vi desmanchar-se em desgosto, gosto por gosto...'



'E, o gosto de sorrir só rimava no som dos teus olhos ...'

quarta-feira, 11 de agosto de 2010



"Infeliz de quem
Amando alguém
Em vão esconde
Uma paixão"


EM PAZ REPOUSA O MEU CORAÇÃO...


Que me seja perdoada a efusividade!


Ligada na tomada,
É assim que estou,
Dando choque,

Eufórica,

[EU-fórica]


Des-esperada Des-esperando Des-esperante


Em completo estado de surto e de insanidade,
Mas absolutamente movida por uma empolgação sem fundamento algum,
Ausente plenamente de motivações concretas e plausíveis,
Mas transbordante...
Internamente transbordante,

Aos gritos e berros que entoam sabe-se lá o que...


segunda-feira, 9 de agosto de 2010



ACABEI de apagar o meu cigarro,
E abandonei um livro _ tudo, em suma:
Até a velha xícara de barro,
Vazia de meu chá, que já não fuma...

Agora cismo... Espírito bizarro,
Forço o silêncio em que o meu ser se esfuma,
Mas, neste ambiente amolecido e charro,
Vou perdendo as idéias uma a uma...

No entanto, cismo. Embora cada vez
Mais vazio, mais oco (e, assim, talvez
Mais puro e bom...), quero ir até ao fim!

_Inquietações de espírito vadio,
Porque eu sucumbo e sinto o desafio
Da natureza-morta que há em mim!...

Alberto Jerónimo

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

VINICIUS FERNANDES CARDOSO



O VAZIO DA ÉPOCA

(...)

Herdamos silêncios,
teses e meio-termos,
ciências novíssimas
e artes entediantes.

Havia trabalho, tédio,
infindas melancolias.

Éramos números,
nomes em salas vazias,
monólogos sem apelo.

Escrevíamos maus poemas,
olhávamos pela janela do ônibus
e tudo parecia vão.

Nos sábados
saíamos a revelia,
e voltávamos cansados.

Num canal passava uma
casa cheia de gente,
noutro intelectuais
sensatos.

(E nós estávamos longe
das importâncias e procurávamos
nas ermas paragens
como barco bêbado
os encantos da vida)


.....

Noite. Noite.
Era uma noite rara
de sombras e vapores,
noite fresca e imemorial.

Chovia.
Íamos pela estrada escura,

éramos vento, música e chão.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

WALT WHITMAN


(...) "Eu sei que sou inquieto e deixo os outros assim,
Eu sei que minhas palavras são armas cheias de perigo,
plenas de morte
Pois eu desafio a paz, a segurança, e todas as leis
estabelecidas, para derrubá-las,
Estou mais decidido pois todas têm negado a mim o que eu
poderia Ter sido caso todas tivessem me aceitado,
Eu não estive atento e jamais estaria à qualquer
experiência, precaução ou maioria,
nem ao ridículo,
E a ameaça do que é chamado Inferno é pouco ou nada para
mim,
E o fulgor do que é chamado Paraíso é pouco ou nada para
mim;

Querido camarada! Eu confesso que tenho desejado que você
siga ao meu lado, e ainda desejo, sem
a mínima idéia de qual seja o nosso destino,
Ou se nós seremos vitoriosos, ou completamente derrotados e
vencidos. "


Trad. Leonardo de Magalhaens


"entre pressas e ternuras
os corpos preparam seu silêncio.."

"que dirá o corpo senão sua autoconvocação à mutação das peles?..."

"um corpo de pudores e frios e ternuras e incubações..."

Foi quando me vi andando em círculos pela casa devorando vorazmente uma tigela de pudim de chocolate zero açúcar, por entre aqueles velhos objetos conhecidos que a pouco se ausentavam por ele ter levado consigo , que apesar de terem passado tão pouco tempo longe aguçavam a minha visão com um sentimento de novidade, e com certa expectativa para o que há de vir, ou que pode vir a ser após tudo aquilo que já havia sido, mas que concomitantemente meus olhos rejeitavam fitando-os com uma repugnância desmedida, refutando a teoria da afinidade proporcionada pelos laços consangüíneos, ao mesmo tempo em que eu proferia sozinha repetitiva insana e compulsivamente: Abstrai, Querida, Abstrai... Abstrai, Querida, Abstrai... Abstrai, Querida, Abstrai... Abstrai, Querida, Abstrai... Abstrai, Querida, Abstrai... Abstrai, Querida, Abstrai...

terça-feira, 3 de agosto de 2010

[sinto um frio aterrorizante, mas nada que se remeta aos efeitos adoravelmente perversos e petrificantes da estação que se faz reinante no momento.
sinto aquele frio de medo, de quando algo ainda fazia sentido, de quando ainda havia algo a ser feito, de quando ainda queria-se fazer algo
e mesmo sendo o mesmo frio, não trazem os mesmos indicativos
aquele frio de outrora era para demonstrar alguma vivacidade, mesmo aterrorizado, via-se em meio há algo, que apesar de causar medo, almejava-se tão grandemente a ponto de atingir os sentidos objetivos.

hoje sou só um amontoado de subjetividade camuflada em uma série de palavras que costumam dizer o extremo oposto ao que eu gostaria, principalmente pelo fato de que na maioria do tempo eu não gostaria de nada dizer, ou de nada precisar dizer, mas minha condição de indivíduo provido por completo de contradições não me permite o silêncio edificante...
esse/essa corpo/armadura imponente e esses gestos bruscos, deveras grotescos e ofensivos não condizem com que há por dentro, ou com o que suponho faze-se presente sabe-se lá onde considero ser esse imaginário, ou do que ele está composto,
mas o que de fato sinto [se é que é possível sentir de fato] ou pressinto, é uma contradição gritante que tento desfazer em palavras, que de pouco tem sido útil, de pouco tem servido,a contradição entre o que digo e própria entonação do que digo são auto-sabotadoras...]

concedam-me férias do meu corpo, por obséquio!
Não superestimo absolutamente nada nesse momento, tudo me parece fútil e vão... tudo banal, oco e desproposital.
[das estratégias usuais, corriqueiras e triviais de auto-engano]
Minha cabeça está doendo.
[do retorno ao humano]
E não sinto necessidade de fazer com que ela pare,
[do masoquismo ludibriante da realidade]
Ao menos assim tenho um fundamento físico coerente para subsidiar meus reclames
[dos incomodos substitutivos]
Sinto um leve fado da própria subjetividade, minha dramalheira infantilóide e desvairada tem feito minha cabeça doer demasiadamente, imagino que seja com as melhores intenções, possivelmente algo do tipo:
-Fazer com que a cabeça dela doa para que pare de pensar em suas atrocidades...
[Seriam atrocidades?]

Como livrar-se de uma existência considerada medíocre quando não há perspectiva a curto prazo de substituí-la por algo mais apetecedor?
[das desculpas ditas esfarrapadas]
Mas como construir esse suposto algo apetecedor antes de se livrar da existência medíocre?
[dos lapsos de iniciativa]
E se ao livrar-se da existência medíocre não emergir nada apetecedor do que restou?
[dos descaminhos acovardantes da dúvida]
E se nada restar?
[da caótica e amedrontante emersão da desistência]

Eu fujo, procrastino, eternamente... enquanto houver tempo.... ou possibilidades... ou a ausência da mesma....


P-A-R-A-L-E-L-I-S-M-O
C-R-Ô-N-I-C-O

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

"(...)
Sem causa, justamente choro e rio,
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto..."

Luís Vaz de Camões.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

'(...) vamos nos persuadir imensamente dos acontecimentos (...) Porque excessivamente grave é a Vida...'

quinta-feira, 29 de julho de 2010



"Comovo-me em excesso, por natureza e por ofício. Acho medonho alguém viver sem paixões."




Graciliano Ramos

No vácuo de mim eu me despenco...
C.F.A.
E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.


Manoel de Barros
"Nunca se pode saber de antemão de que são capazes as pessoas, é preciso esperar, dar tempo ao tempo, o tempo é que manda, o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa e tem na mão todas as cartas do baralho, a nós compete-nos inventar os encartes com a vida..."

José Saramago
.
.
.
.
Ok! Tempo, reconheço vossa supremacia, agora pode, por favor, retirar as mãos do meu pescoço?
“Cuidado com as ilusões, mocinha, profundas e enganosas feito o mar.”

quarta-feira, 28 de julho de 2010

...'Tudo isso descansa no colo dos deuses,'


(Homero, Ilíada, XVII. 514.)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Queixas e dissabores, agravados pela sensibilidade do caráter propenso ao furor comedido, bebi pela mesma taça o fel do infortúnio, preparado em grande parte por minhas próprias mãos




Tudo prosa rasa e grosseira...




[Minha memória dorme com o passado]

''Eu me acerto, eu tropeço
E não passo do chão
(...)
Eu suporto a colisão
Da verdade
Na contra-mão...''

segunda-feira, 26 de julho de 2010

"Fazia muito tempo que eu não tinha vontade de sorrir para nada nem para ninguém, então era extraordinário que ele conseguisse perturbar assim os cantos de meus lábios."


Caio F. Abreu
Olha, você tem todas as coisas
Que um dia eu sonhei pra mim
A cabeça cheia de problemas
Não me importo, eu gosto mesmo assim

Tem os olhos cheios de esperança
De uma cor que mais ninguém possui
Me traz meu passado e as lembranças
Coisas que eu quis ser e não fui

Olha você vive tão distante
Muito além do que eu posso ter
Eu que sempre fui tão inconstante
Te juro, meu amor, agora é pra valer

Olha, vem comigo aonde eu for
Seja meu amante, meu amor
Vem seguir comigo o meu caminho
E viver a vida só de amor

- Olha - Erasmo Carlos e Chico Buarque.
Transbordante em minha Loucura
Persistente na Própria Confusão
Filha do Caos e da Inquietação Paralisante

... ao menos me sinto Provida de Alma!





[não me afobo.... eu me afogo]
Perdi o sono com um gato fazendo barulho de geladeira em meus ouvidos

Hipnotizou-me o impertinente e imparável tic-tac do relógio que me fitava, imponente, de longe...

Tornei-me meu próprio barulho de geladeira!

Se achegue, gato folgado, traga-me a objetividade do seu ronronar.
[Estaria mesmo manuseando os personagens do meu universo paralelo?
Os quero apenas no meu universo paralelo sob meu manuseio?

Me faço pergunta irrespondível... e me afogo nas próprias complexidades]

Do ver-se [ou pensar-se] despertando

Que a minha loucura não me pare
E que o meu medo não me cale

[Que o império das rimas primárias não se firme!]

Que a ânsia de desconstrução se instaure

Sim, essa coisa que...
...ME VENS, ME CHEGA, E ME TOMAS,

vestida de nulidade, doce e afável, ME APETECE!

[durma]

[S-U-P-E-R-E-S-T-I-M-A-R-S-E

S-U-B-E-S-T-I-M-A-R-S-E

O eterno e imparável pendulo!]

Da necessidade de despertar [ou de profundamente adormecer]

Se eu não estivesse com as mãos firmes nas rédeas da Tolice, onde chegaria?
Se soubesse me desapegar das rédeas da Tolice, onde me levaria?

- Vamos, Tolice, esforce-se, detenha-me!



[O que aflige na possibilidade de reger-se pela Tolice?
Em que consiste a repulsa pela mesma?
Por que abdicar do direito inalienável de usufruto?

- Venha, Tolice, se fores doce e afável! ]

Das sementes da Insônia

Estou a transbordar!
Sucumbiria se interrompesse tal processo?
Ou sucumbo por subsidiá-lo?

Dos frutos [verdes] da insônia

Dos que fostes... o que fica?

Dos frutos [podres?] da insônia

O mais recorrente auto-engano: Supor-se no poder do fio condutor da própria consciência. Responsabilidade da qual me privo sem pudor....
Se lhe apetece, Mente, vague!
Como queria, e por onde imaginar ser pertinente!

[O diálogo interior insiste em transcender o espaço em que pode existir com graus de periculosidade nulos, sempre querem sobressair-se, fazer-se presente.

O impulso e o fluxo vital contrariando a minha inércia empurram além...]

Dos frutos da insônia

Vez ou outra, invariavelmente, surge essa gritante necessidade de se esconder.
Necessidade de fuga e de abrigo.
Os paradoxos se afloram e emergem à superfície!
Vistos a olhos nu!

É tempo de esconder-se !

....para achar-se, assimilar o quem tem sido, e dentro disso, o que pode vir a ser.
Tomar conhecimento de que se está existindo...
Assustar-se com isso, retomar as antigas e eternas perplexidades... [por que não?]

Saber-se no mundo e ver o mundo em si, sem se preocupar com a relativizável possibilidade de isso ser bom ou mau...
Sabe-se apenas sendo, [e por alguns instantes isso chega a bastar.]..

É quando se nota a possibilidade de ser, longe de qualquer recurso, descolado dos artifícios, quando a naturalidade de ser simplesmente flui...

Faz-se pleno!

domingo, 25 de julho de 2010

Eis a questão, meu caro Tom Zé...

'Será que algum rapaz de vinte anos
vai telefonar
na hora exata em que ela estiver
com vontade de se suicidar?'
'Meu fingimento é sério
Como aéreo
É sempre todo amor'

sexta-feira, 23 de julho de 2010




'O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera...'

- Escute-me, amigo, a lua está alta no céu. Você não tem medo? O desamparo da natureza. Esse luar, pense bem, esse luar mais branco que o rosto de um morto, tão distante e silencioso, esse luar assistiu aos gritos dos primeiros monstros sobre a terra, velou sobre as águas apaziguadas dos dilúvios e das enchentes, iluminou séculos de noites e apagou-se em seculares madrugadas... Pense, meu amigo, esse luar será o mesmo espectro tranquilo quando não mais existirem as marcas dos netos dos seus bisnetos. Humilhe-se diante dele. Você apareceu um instante e ele é sempre. Não sofre, amigo? Eu... por mim não suporto. Dói-me aqui, no centro do coração, ter que morrer um dia e, milhares de séculos depois, indiferenciado em húmus, sem olhos para o resto da eternidade, eu, EU, sem olhos para o resto da eternidade... e a lua indiferente e triunfante, mãos pálidas estendidas sobre novos homens, novas coisas, outros seres. E eu Morto! Pense amigo, Agora mesmo ela está sobre o cemitério também. O cemitério, lá onde dormem todos os que foram e nunca mais serão. Lá, onde o menor sussurro arrepia um vivo de terror e onde a tranquilidade das estrelas amordaça nossos gritos e estarrece nossos olhos. Lá, onde não se tem lágrimas nem pensamentos que exprimam a profunda miséria de acabar.

Clarice Lispector



Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar facas
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias...




Ana C.

...'Por que é que você veio me perder?'

quarta-feira, 21 de julho de 2010

“Mas fica
Mas fica, meu amor
Quem sabe um dia
Por descuido ou poesia
Você goste de ficar.”

- Chico Buarque.
“Mas no meio da fuga, você aconteceu.
(...)
Mas o dilaceramento foi só meu, como só meu foi o desespero.”

Caio Fernando Abreu

terça-feira, 20 de julho de 2010



“Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”

segunda-feira, 19 de julho de 2010




'Quanto mais te disfarçares, mais te parecerás a ti próprio.'

Pois é, meu caro Saramago...




'Todos os dicionários juntos não contêm nem metade dos termos de que precisaríamos para nos entendermos uns aos outros'
[Ao menos no inverno posso supor que o frio que atormenta a alma não passa de uma condição climática]

sexta-feira, 9 de julho de 2010





'Me apego facilmente ao que desperta meu desejo...'

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Perto de ti dança a minha alma desarmada...




[Vivemos rodeados de silêncio e solidão, pois não há palavras para responder às nossas inquietudes, como não há presença para povoar nosso vazio.]




[O único sentimento presente e certo é a minha própria solidão]



[Sim, é possível se arder de solidão como se arde de amor!]
Ah! Se aqueles lábios tocassem os meus,
...da mesma forma doce macia e aveludada como aquelas palavras adentravam aos meus ouvidos,
Se aquelas mãos me tocassem,
...alvas finas e delicadas, da mesma forma acalentadora que aqueles olhos fitavam com mistério e dúvida
... Algo se faria pleno.



[Mas o discurso é inútil
As palavras são vãs e precarias

...e delas faço a corda que prazerosamente envolvo o meu pescoço... ]


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Roubaram a minha calma

... e me deixaram em troca quantidades de sono excessivas
Tenho ansia de vida pela falta de calma

...e desenvolvo o desespero pela falta de coragem trazida pelo sono
Quero que a vida venha até mim

...há pouca habilidade prática em meus atos para buscá-la

Mãos fortes e precisas oprimem meu grito

...algo sufoca, me atravessa a garganta



Esse grito não efetuado ensurdece os ouvidos da alma.....
"É preciso abraçar a volúpia
Fartar-se de prazeres
Não ter medo da morte"

Goethe

DESENCANTO



Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.

E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.

- Eu faço versos como quem morre.


Manuel Bandeira

terça-feira, 29 de junho de 2010


Tudo sempre meticulosamente fabricado:

A calma
A tranqüilidade
A serenidade

Fabricam-se todas as necessidades

Fazemo-nos quantos for necessário

E em meio a toda essa multiplicidade
Sufocamos!

Não tenho feito muito sentido
Mas muito tenho sentido

Pouco se sabe quando não se faz sentido
Mas muito se sente quando pouco se sabe

As limitações são sempre inevitáveis!
E os sentidos são infindos!
Não quero me perder por entre os rastros da poeira dos dias.

Mas o que resta da vida além da poeira dos dias?
O que resta de nós além da poeira dos dias?

[E o que resta de mim além de uma série de perguntas que pouco sentido fazem aos meus interlocutores?]
De onde pode ter saído esse desejo insensato por tais circunstancias, as quais nunca fizeram parte efetiva do meu cotidiano? Por que esse encantamento por essa realidade inventada? Seriam apenas válvulas de escape para ludibriar o meu bom gosto da triste e decadente realidade das minhas reais circunstâncias?

Todos os elementos que compõem esse espaço são demasiadamente feios e desagradáveis. Sim, simplório assim como soa, banal como pode vos parecer. Demasiadamente feio, minhas corriqueirices apenas inflam meu arsenal gigantesco de descontentamento, essas cores destoantes, pessoas destoantes (eu destoante?)...

Na pior (e última e única) das hipóteses, ao menos eu poderia de estar ouvindo Claudette Soares, tomando um vinho barato em uma taça barata na companhia de pessoas indiscutivelmente baratas.
Os perdidos! Sempre me interessaram os perdidos, principalmente os perdidos que não sabem de sua situação. Esses são os perdidos mais encantadores!
(E fazem falta os perdidos que deixei nos meus descuidos pelo caminho).

As pessoas encontradas são cansativas e desencantadas, essas pessoas caras me afetam negativa e traumaticamente...




Céus!
A tanto estamos fadados!
Tantos são os percalços inevitáveis.
Tantas são as fraturas irreparáveis.
Tantos são os desagrados,
os desafetos,
os desatinos
descaminhos.
Tantos...
Incontáveis...
Mesmo na pasta cotidiana,
mesmo nas ações irrefletidas,
Sempre restam vestígios de certa angustia.
Sempre o desagradável imperando.
Sempre um desconforto leve trazendo sensações bruscas de que a vida não tem jeito.
O fato é que se teme o erro,
não exatamente pela falta de tempo,
e do provável atraso que os erros proporcionam,
mas pelo seu caráter dilacerante.
Os erros são dilacerantes,
deixam a carne exposta,
os erros beliscam para não serem esquecidos
...e deixam hematomas incuráveis,
qualquer momento em que se contemple,
ou que se busque contemplar a própria imagem,
lá estarão as marcas estéticas e emocionalmente depreciáveis do erro,
das escolhas equivocadas,
dos tropeços bruscos arrancadores de cabeças de dedão...
Lá estará aquela dor latejando,
[ dor esta que ainda não foi possível encontrar analgésico suficientemente potente para detê-la.]
Nada poderia.
Nada teria a eficiência necessária.
Nada seria capaz de devolver a limpidez da ausência dos primeiros erros...
Nada,
...em absoluto,
nada poderia ser capaz de proporcionar alívio, alento,
está-se fadado.
F-A-D-A-D-O.
[Toda aquela sensibilidade aflorada não traria respostas
As respostas não viriam dessa maneira:
aflorada,
brusca,
desesperada
... isso já era de conhecimento prévio,
Contudo, o que traria as respostas?
Quais elementos seriam necessários acrescentar para que algo esclarecedor ocupasse essa lacuna obscura e pouco explorada que é o campo das possibilidades?]

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Maldita vida moderna
Tolos preceitos norteadores de nossa existência

Somos todos fadados ao conflitante paradoxo que permeia a medíocre cotidianidade: Administrar as múltiplas e intermináveis tarefas
num tempo que parece estar sempre escapando,
e em contrapartida,
não morrer do tédio
que eterniza as horas vazias

'E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.
Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca
.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.
Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua'


Federico García Lorca

Caio faz doer... ou seria a vida que faz doer?

" Uma pessoa quando tá longe vive coisas que não te comunica e tu aqui vive coisas que não comunica a ela. Então vocês vão se distanciando e quando vocês se encontram, vocês vão falar assim: 'oi, tudo bom e tal, como é que vão as coisas?' E aí ele vai te falar por cima de tudo o que ele viveu e, não sei, vai ser uma proximidade distante. Não adianta, no momento que as pessoas se afastam elas estão irremediavelmente perdidas uma pra outra... "

Caio F.Abreu


'Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina'


Manoel de Barros
Negligenciando as possibilidades
Negando a riqueza imensurável dos sentidos
Negociamos a indução de nossa sensibilidade

Fizemo-nos escrita em detrimento da escuta...
Circunstancialmente bucólicas
Karmicamente melancólicas
Induzidamente alcoólicas

Eis o fardo de nossas últimas íntimas palavras...

Armando Freitas

quarta-feira, 23 de junho de 2010

'Seja o que for, era melhor não ter nascido,
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,

(...)

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...
Que há de ser de mim? Que há de ser de mim?

(...)

Oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir...
Tão decadente, tão decadente, tão decadente...
Só estou bem quando ouço música, e nem então.
Jardins do século dezoito antes de 89,
Onde estais vós, que eu quero chorar de qualquer maneira?
Como um bálsamo que não consola senão pela idéia de que é um bálsamo,
A tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai.
Acenderam as luzes, cai a noite, a vida substitui-se.
Seja de que maneira for, é preciso continuar a viver.
Arde-me a alma como se fosse uma mão, fisicamente.
Estou no caminho de todos e esbarram comigo.'

(...)

Álvaro de Campos

Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.


Álvaro de Campos

Caio Fernando Abreu - Ovelhas Negras


“Vem, que eu quero te mostrar o papel cheio de rosas nas paredes do meu novo quarto, no último andar, de onde se pode ver pela pequena janela a torre de uma igreja. Quero te conduzir pela mão pelas escadas dos quatro andares com uma vela roxa iluminando o caminho para te mostrar as plumas roubadas no vaso de cerâmica, até abrir a janela para que entre o vento frio e sempre um pouco sujo desta cidade. Vem, para subirmos no telhado e, lá do alto, nosso olhar consiga ultrapassar a torre da igreja para encontrar os horizontes que nunca se vêem, nesta cidade onde estamos presos e livres, soltos e amarrados. Quero controlar nervoso orelógio, mil vezes por minuto, antes de ouvir o ranger dos teus sapatos amarelos sobre a madeira dos degraus e então levantar brusco para abrir a porta, construindo no rosto um ar natural e vagamente ocupado, como se tivesse sido interrompido em meio a qualquer coisa não muito importante, mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim. Então quero que você venha para deitar comigo no meu quarto novo, para ver minha paisagem além da janela, que agora é outra, quero inaugurar meu novo estar-dentro de- mim ao teu lado, aqui, sob este teto curvo e quebrado, entre estas paredes cobertas de guirlandas de rosas desbotadas. Vem para que eu possa acender incenso do Nepal, velas da Suécia na beira- da da janela, fechar charos de haxixe marroquino, abrir armários, mostrar fotografias, contar dos meus muitos ou poucos passados, futuros possíveis ou presentes impossíveis, dos meus muitos ou nenhuns eus. Vem para que eu possa recuperar sorrisos, pintar teu olho escuro, salpicar tua cara com purpurina dourada, rezar, gritar, cantar, fazer qualquer coisa, desde que você venha, para que meu coração não permaneça esse poço frio sem lua refletida. Porque nada mais sou além de chamar você agora, porque tenho medo e estou sozinho, porque não tenho medo e não estou sozinho, porque não, porque sim, vem e me leva outra vez para aquele país distante onde as coisas eram tão reais e um pouco assustadoras dentro da sua ameaça constante, mas onde existeum verde imaginado, encantado, perdido. Vem, então, e me leva de volta para o lado de lá do oceano de onde viemos os dois.”


Estômago da alma alvorotado de eu ser...

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Eu me vi falando,[Por alguns segundos fiz-me duas para ver aquela metade a dizer tantas coisas desvairadamente] fato este que só ocorria quando o desespero fazia-se presente da forma mais intensa e absurdamente incontrolável, e na impossibilidade de gritar, eu falava, verborragias baratas chulas e dispensáveis misturadas com as mais duras verdades que até mesmo eu, em momentos de desvairos, temia proferir.

Eu falava em demasia apenas nesses momentos, minha presença sempre fez-se em silêncio e dúvida, eu nunca me fiz clara e transparente, por mera omissão ou falta de habilidade em expor-se[ não que eu não me soubesse, ou não me sentisse existindo suficientemente].

Agora, não sei ao certo as motivações, não sei ao certo por quando tempo irá durar essa efusividade de palavras soltas e muitas vezes desconexas, sinto-me liberta das amarras que reprimiam minhas palavras e as deixavam fluir apenas em meio aos surtos.
Hoje me saboto, dou tiros verbais nos próprios pés... mas não poderia dizer que isso é de todo inconveniente... [Ei de saber um dia]
"Tenho que escolher o que detesto - ou o sonho, que a minha inteligência odeia, ou a ação, que a minha sensibilidade repugna; ou a ação, para que não nasci, ou o sonho, para que ninguém nasceu.
Resulta que, como detesto ambos, não escolho nenhum; mas, como hei de, em certa ocasião, ou sonhar ou agir, misturo uma coisa com outra." (Bernardo Soares)
A mentira, a mentira perfeita, acerca das pessoas que conhecemos, sobre as relações que com elas tivemos, sobre o nosso móbil em determinada acção formulado por nós de uma forma completamente diferente, a mentira acerca do que somos, acerca do que amamos, acerca do que sentimos pela criatura que nos ama e que julga ter-nos tornado semelhante a ela porque passa o dia a beijar-nos, essa mentira é das únicas coisas no mundo que nos pode abrir perspectivas sobre algo de novo, de desconhecido, que pode abrir em nós sentidos adormecidos para a contemplação do universo que nunca teríamos conhecido.

Marcel Proust, A Prisioneira


"Eu quero um colo, um berço, um braço quente em torno ao meu pescoço, uma voz que cante baixo e pareça querer me fazer chorar. Eu quero um calor no inverno, um extravio morno de minha consciência e depois sem som, um sonho calmo, um espaço enorme, como a lua rodando entre as estrelas..."




O Livro do Desassossego
"Sermões e lógicas jamais convencem;
O peso da noite cala bem mais
Fundo em minha alma. "

Walt Whitman

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Caio... Caio...

[...coisas inexplicáveis, carências incuráveis...
Ninguém acredita, mas eu sou uma pessoa muito sozinha.
Não pense que isso é ruim não,
porque ruim é não sentir nada,
a solidão faz parte.
Tenho sentido uma vontade sobrenatural
de ligar para alguém que já não me atenderia mais,
tenho vontade de dizer que faz falta o que não vivi. ]
"Ora veja... é o que sempre acontece às pessoas românticas: enfeitam uma criatura, até o último momento, com penas de pavão, e não querem ver, nela, senão o que é bom, muito embora sentindo tudo ao contrário.
Jamais querem, antecipadamente, dar às coisas o seu devido nome.
Essa simples ideia lhes parece insuportável.
A verdade, repelem-na com todas as forças, até o momento em que aquela pessoa, engalanada por elas próprias, lhes mete um murro na cara."

in Crime e Castigo.
As coisas se perdem,
simplesmente desaparecem,
simplório desinteressante e sem nenhum requinte, assim como vos parece

as bases vão ruindo gradativamente,
escapam pelos vãos dos dedos,
vão esvaindo aos poucos

...até não mais estarem presente,

até não ser mais possível referenciar-se,
um vazio pleno faz-se embaixo dos pés

...e vaga-se,

sem nenhuma firmeza,
sem nenhuma estrutura...



[Eu queria ser uma ilha]

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Pois é, Caio, por quê?

"Por que, na segunda-feira, eles (nós) não revelam a carência do fim de semana e se dizem coisas duras?"

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Proporcione-me a sensação de poder estar desencontrada em meio à estranheza da existência.
Que adentre frio pela janela e petrifique meus anseios incansáveis;
Chopin pelos meus ouvidos distraindo os meus fantasmas e assombros persistentes;
Vinho pelos meus lábios deixando minhas angustias ébrias livremente imorais e profanadoras das minhas lamúrias injuriosas;
Que o desalento me dê um abraço forte ao ponto de esfacelar os ossos para que eu possa prostrar-me sobre uma superfície macia absolutamente resignada,
absolutamente entregue,
dispersa,
vagando vagarosamente na superfície,
totalmente vazia,
totalmente rasa,
insustentavelmente leve...

sexta-feira, 28 de maio de 2010






Solidão, que poeira leve
Solidão, olha a casa é sua

quinta-feira, 27 de maio de 2010

quarta-feira, 19 de maio de 2010






Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.



Eugênio de Andrade

sexta-feira, 7 de maio de 2010



A vida tem sido essa coisa morna que não merece desgaste reflexivo. Refletir é matéria suicida e desgastante, não necessariamente pelo trabalho mental empregado, mas pela certeza irrefutável da angústia que se encontra pelo caminho em forma de material gosmento capaz de fazer deslizar até os passos mais firmes e precisos, e o caos, em estacas pontiagudas perfurando toda e qualquer superfície dos supostos seres providos de trabalho mental, e principalmente pela certeza que no findar do processo reflexivo, sempre se usa conclusões que demonstram a banalidade de todo e qualquer processo, e toda e qualquer circunstância.
Nada resiste, o interesse é efêmero, não resiste aos dedos perscrutadores que apalpam a vida em busca de cavidades novas e inexploradas, não há becos na existência que resista ao acender de uma lâmpada.
Não há nada
Nada resiste

Se podes, consegues, tem estômago, habilidade e prática, viva na superfície!